quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Ainda há alunos assim?

Dizia-nos há tempos, o agora Bispo do Porto, D. Manuel Clemente, que muitas das coisas que a disciplina de Educação Moral fazia na Escola Secundária de Peniche, não podiam ficar guardadas no fundo duma gaveta.
Há de facto pequenas coisas que vale a pena partilhar. Primeiro, porque são bonitas; depois porque os alunos merecem; finalmente, porque nós professores, temos muito orgulho nestes alunos. É a verdade.
Apresentaremos então apenas alguns momentos ligados à nossa campanha de Natal e que ocorreram durante o passado mês de Dezembro.
1 - Duas turmas do 12º ano organizaram e promoveram uma Ceia de Natal para os "mais simples" da cidade: doentes, idosos, toxicodependentes, ex-reclusos e outros mais ou menos esquecidos e abandonados. Esta Ceia de Natal teve lugar na sala de convívio da nossa escola e foi servida pelos próprios alunos que contaram com uma equipa de apoio de adultos no serviço da cozinha. Aos 19 presentes, foi servida uma sopa, um prato de carne e uma sobremesa com bolos e doces, confeccionados pelos próprios alunos.
2 - Uma equipa constituída por oito alunos, esteve na 2ª semana de férias e passagem de ano, a prestar serviço de voluntariado junto de doentes profundos no Centro João Paulo II - Fátima.
Fomos visitá-los nesta sublime missão e ficámos verdadeiramente impressionados com o que vimos e ouvimos. Que carinho! Que dedicação! E, sobretudo, aquele brilho no olhar... Sem

palavras!
Na altura da despedida a directora do Centro confidenciava-nos: "Tendes aqui um grupo de alunos fantásticos. Muito dedicados aos doentes, muito amigos e muito responsáveis."1 - Este ano concorreram às eleições para a Associação de Estudantes da nossa escola quatro listas. Foi exemplar o empenhamento e o entusiasmo na luta pela vitória. Foram muitas as iniciativas que as várias listas recriaram e inventaram com vista à obtenção de alguns fundos, que, em caso de vitória, lhes permitissem, concretizar os seus projectos.
Como naturalmente apenas uma das quatro listas candidatas poderia vencer, então uma das listas perdedoras resolveu aplicar a verna em caiza, cerca de quinhentos euros, na aquisição de equipamento para uma sala de aula. Neste caso para a sala de Educação Moral. Bem-hajam, amigos!
2 - Alunos, professores, funcionários, pais, encarregados de educação, avós, crianças, antigos alunos e tantos outros, fizeram transbordar no passado dia 18 de Dezembro, o velho ginásio da nossa escola para a celebração da nossa tradicional Festa de Natal.
Até aqui, tudo bem! É o normal. É sempre assim todos os anos. Tudo bonito. Muito bonito até mesmo quando o nosso presidente sobe ao palco para (en)cantar... Lindo! Muito lindo!
Porém, algo de novo aconteceu, quando o Director da Casa do Gaiato, também ele presente, subiu ao palco. Após manifestar o seu agradecimento e a sua alegria por estar entre nós, olhou intensamente para toda a assembleia e lançou um enorme desafio, exactamente assim:
"Amigos: querem construir um lar/casa de apoio, para crianças abandonadas, na Ilha do Príncipe?"

É fácil imaginarmos, amigos leitores, o entusiasmo, e, ao mesmo tempo a perplexidade da assembleia, perante tão inesperado como "ousado" desafio.
Porém, quem um dia passou pela Escola Secundária e foi aluno de Moral, percebe bem por que estas coisas podem acontecer assim...
Bem-haja, Pe. Arsénio, por acreditar nos nossos alunos...
3 - E que dizer daquele grupo de alunos que, antes de partir para férias, foram por sua iniciativa, colocar um ramo de flores nas campas do Sr. José (o ceguinho da porta da praça) e do querido Delfim, ambos recentemente falecidos, e por isso, ausentes da nossa Ceia de Natal, eles que em vida, sempre nos alegraram com a sua presença?
Foram apenas alguns registos. Poderíamos apontar muitos outros, tal a riqueza da nossa campanha e a grandeza dos nossos alunos.
Para terminar, pensamos que fará todo o sentido uma pergunta: Porque acontecem todas estas coisas na nossa comunidade educativa, ao mesmo tempo que, em muitas outras Escolas, se assistem a situações perfeitamente incríveis e inacreditáveis de má formação e de má educação por parte de alguns dos seus alunos?
Haverá com certeza várias respostas. Várias opiniões. Nós temos a nossa. Talvez surpreendente. Porém, para nós professores, não se trata de uma simples opinião. É uma certeza. E uma certeza seguríssima.
O amigo leitor estará, por acaso ainda recordado de uma extraordinária actividade, organizada pela disciplina de Educação Moral, durante as férias da Páscoa, divulgada até com interessante destaque nos meios de comunicação social?
Pois é. É isso. É isso tudo! Equanto os alunos de muitas outras Escolas de Portugal se dirigiam para Espanha nas suas tradicionais viagens de finalistas, os alunos da Escola Secundária de Peniche, na mesma altura, caminhavam para Fátima em peregrinação a pé.
Dúvidas? Então perguntem aos 200 alunos que caminharam connosco...


in Jornal "A Voz do Mar" nº 1246
Por: Professores de Educação Moral (Chico e Cristina)







domingo, 1 de fevereiro de 2009

Doce memória

As férias de Natal tinham acabado e era tempo de voltar às nossas visitas ao Lar de Santa Maria. Ansiava por aquele momento há dias, por não ter tido oportunidade de la voltar durante as férias. Ansiava por ver sorrir todas aquelas pessoas carentes de amor e atenção, ansiava por ver um brilho nos olhos de cada um, ansiava por um sorriso sincero. Ansiava saber que estava tudo bem, desde há duas semanas atrás.
Quando chegou a hora, fiquei feliz por parecer tudo como habitualmente, respostas menos simpáticas que em escassos momentos se transformavam em agradáveis conversas... Contudo, ao percorrer alguma distância no interior do lar, senti que algo estava diferente... Faltava alguém, não fisicamente, mas faltava um sorriso, um beijo... Faltava o grito pelo meu nome enquanto me dirigia à pessoa... Faltava o abraço caloroso pelo qual ansiava desde o último dia.
Dirigi-me a ela com ó meu melhor sorriso e quase com as lágrimas nos olhos, e ao dar-lhe um beijo olhou-me e não me falou. Iniciei uma tentativa de conversa, mas parecia que não se recordava da minha pessoa.
- D. Marília, não se lembra de mim? Sou a Joana, a sua amiga Joana... - disse-lhe, esperando uma resposta positiva. Contudo, tudo o que recebi de volta foi um olhar vazio e um silêncio profundo. Tinha as lágrimas nos olhos, agora não de alegria, simplesmente não estava a compreender o que se passava, queria esquecer que aquilo estava a acontecer.
- A Joana... eu até guardei o meu número de telefone no seu telemóvel novo... a senhora disse para eu guardar com o nome de "amiga Joana", não se lembra? - foi tudo o que me veio à ideia no momento, mas de novo fiquei sem resposta... desta vez desviou o olhar de mim como se não existisse... O que teria acontecido? Aquilo não podia ser verdade, era um pesadelo, de certeza. Esperei mais um pouco, ali fiquei, atirando palavras para o ar, mas nada aconteceu.Continuei a minha visita, com extrema dificuldade em oferecer o meu sorriso aquelas pessoas que tanto necessitavam...




Mais uma semana de ansiedade, agora ansiava também, para além de tudo o que tinha ansiado na semana anterior, que aquela senhora estivesse melhor, que me reconhecesse. Cheguei ao pé dela e reparei que estava a dormir, que não havia oportunidade de saber se estava melhor, se já se recordava da sua amiga Joana. Permaneci a seu lado por alguns minutos, olhando-a... quando dei por mim, era tempo de continuar a visita... Suavemente peguei-lhe na mão e baixinho para que ninguém ouvisse disse "Espero que esteja bem. Gosto muito de si."




Ansiava pela sexta feira que estava a chegar mais uma vez... era verdade que não me estava a sentir muito bem nesse dia, mas não tinha razão para tal.
Caminhava em direcção ao lar, com o meu "gémeo" João Guilherme quando ele me perguntou quem era a D. Marília. Eu expliquei-lhe, relembrando cada momento passado com ela, as imensas vezes que lhe dissera para não cruzar as pernas e o que nos riamos com isso. Quando chegámos, a Joana disse-me algo que não queria ouvir e que temia desde aquele dia...
- Não pode ser.. - Foi tudo o que consegui dizer, perdi as forças e sentei-me... não sabia o que fazer, nem como iria falar com o resto das pessoas que tanto precisava de conversar... Ali fiquei, a ver a chuva cair, forte e fria... Sozinha não teria conseguido entrar... Sozinha não tinha conseguido superar... Mas tentei agir naturalmente, pois tinha ao meu lado três das melhores pessoas do mundo, que me apoiaram... (Obrigado Joana, Pedro e João)




Hoje talvez me sinta aliviada... talvez tenha sido o melhor...

... existe mais um anjo doce no Céu ...!


Por:Joana Condeço